Vivenciando a psicoterapia de casal na prática clínica: antes e depois da EFT

Por Luana dos Santos. Psicóloga (CRP-07/17811), Terapeuta EFT Certificada (ICEEFT) e Líder da Comunidade EFT Brasil.

Atender casais na prática clínica costuma mobilizar desafios intensos para muitos psicólogos. Conflitos recorrentes, dificuldades de comunicação e um distanciamento emocional progressivo são apenas algumas das dinâmicas que aparecem com frequência no consultório. Diante desse cenário, é comum surgir a pergunta: como conduzir a psicoterapia de casal de forma mais clara, consistente e eficaz?

Nesse contexto, a psicoterapia de casal EFT (Terapia Focada nas Emoções) tem se consolidado como uma abordagem estruturada e profundamente humana, voltada para a compreensão das emoções e das necessidades de apego que organizam o vínculo. Mais do que manejar conflitos, a EFT propõe um caminho de reconexão emocional entre os parceiros, oferecendo ao terapeuta um mapa clínico que orienta cada etapa do processo.

Ao longo deste artigo, você vai entender como a EFT transforma a prática clínica com casais, evidenciando as diferenças entre o antes e depois da aplicação do modelo, além dos impactos na condução das sessões e nos resultados terapêuticos

O desafio de atender casais na prática clínica 

Para muitos psicólogos, atender casais é um desafio: eles chegam com muitos conflitos, com raiva um do outro, com assuntos nunca abordados que se transformam em grandes muralhas de afastamento. 

É claro que todo terapeuta quer muito ajudar esse casal, mas ao recebê-los também é inundado por essa energia pesada e muitas vezes se pergunta: o que fazer?

Minha trajetória com casais também me levou a essa pergunta e foi aí que conheci a EFT, Terapia Focada nas Emoções para casais. Logo que li sobre o modelo percebi uma maneira diferente de conduzir a psicoterapia com casais. 

A formação na EFT e o aprofundamento no modelo 

Realizando o primeiro treinamento, Externship, compreendi que realmente eu estava em um caminho que fazia sentido para mim. Então, com muita certeza e desejo de ofertar um bom tratamento para meus pacientes, decidi fazer o segundo treinamento, Core Skills.

Desde aqueles tempos, foi um caminho sem volta. Abracei todos os convites e oportunidades para crescer e aprender sobre o modelo. E todas essas oportunidades abriram portas para que eu integrasse mais do modelo.

Antes e depois da EFT na prática clínica 

Naturalmente, fui percebendo grandes mudanças com meus pacientes. O “depois” da EFT na prática clínica foi marcado por intervenções mais experiencialmente orientadas, com uma maior integração entre teoria e prática. 

A EFT oferece um modelo claro de formulação de caso e de intervenção, o que contribui para uma atuação clínica mais consistente e intencional. Então passei a conduzir o processo terapêutico com base em etapas bem definidas, conforme o mapa do modelo. 

Um modelo com estrutura clara e direção clínica

E aí está um diferencial que passa muita segurança para o terapeuta: a EFT possui um mapa, com passos bem definidos e que são como uma bússola que conduz o profissional e o ajuda a direcionar o tratamento.

A mudança no papel do terapeuta 

A partir disso, algo também começou a se transformar dentro de mim como terapeuta. Se antes eu me sentia, em alguns momentos, tentando organizar o caos ou mediar conflitos intensos, com a EFT passei a ter um lugar mais claro na sessão: o de facilitadora de encontros emocionais. 

Deixei de buscar apenas soluções para os problemas apresentados e passei a me aprofundar na experiência emocional de cada parceiro, compreendendo o que estava por trás das críticas, dos silêncios e das explosões.

Compreendendo a dor por trás dos conflitos

Com o tempo, tornou-se mais evidente que muitos dos conflitos trazidos pelos casais não eram, de fato, sobre o conteúdo das discussões, mas sobre a dor da desconexão. 

A EFT me ensinou a escutar além das palavras, a identificar emoções primárias e necessidades de apego que, muitas vezes, nunca haviam sido nomeadas. E, mais do que isso, me deu ferramentas para ajudar os parceiros a expressarem essas vulnerabilidades de forma segura na presença um do outro.

Os momentos de virada na sessão 

Os momentos mais marcantes da prática clínica passaram a ser aqueles em que algo novo acontecia na sessão, como por exemplo, quando um parceiro conseguia, pela primeira vez, dizer “eu sinto medo de te perder” em vez de acusar, ou quando o outro conseguia responder com acolhimento em vez de defesa. 

Esses pequenos grandes momentos se tornaram pontos de virada no processo terapêutico, promovendo mudanças profundas e duradouras no vínculo.

A mudança na percepção dos casais

Outro aspecto importante foi a mudança na forma como os próprios casais passaram a se perceber. Ao compreenderem o ciclo negativo em que estavam presos, deixaram gradualmente de se ver como inimigos e começaram a reconhecer que ambos estavam lutando contra um padrão relacional que os afastava. Essa nova perspectiva favoreceu o desenvolvimento de uma postura mais colaborativa e compassiva dentro da relação.

Estrutura com flexibilidade: liberdade com direção 

Além disso, a previsibilidade do modelo não engessa a prática, mas, ao contrário, oferece liberdade com direção. Ter um mapa não significa seguir um roteiro rígido, e sim saber onde se está e para onde se pode ir, respeitando o tempo e a singularidade de cada casal. Isso traz não apenas mais segurança para o terapeuta, mas também mais confiança para os pacientes, que passam a perceber um sentido no processo que estão vivendo.

O impacto da Terapia Focada nas Emoções na trajetória clínica 

Hoje, ao olhar para minha trajetória, reconheço que a EFT não apenas transformou minha forma de trabalhar, mas também ampliou minha compreensão sobre o amor, o vínculo e a dor relacional. A prática clínica se tornou mais profunda, mais humana e, sobretudo, mais eficaz.

Vivenciar a psicoterapia de casal antes e depois da EFT é, portanto, testemunhar uma mudança de paradigma — de uma atuação centrada na resolução de conflitos para uma abordagem que promove reconexão emocional. 

E, é nesse espaço de encontro, vulnerabilidade e responsividade que, muitas vezes, os casais encontram não apenas alívio para seus sofrimentos, mas também novas formas de se relacionar e de construir um vínculo mais seguro e significativo.