Uma historia sobre Aliaça Terapeutica

“O papel do terapeuta é semelhante ao de uma mãe que fornece ao seu filho uma base segura para explorar o mundo.” Bowlby (1988)

Procurei por muito tempo uma metáfora para descrever a aliança terapêutica no tratamento EFT, sem encontrar uma adequada.

Então, numa manhã nublada, de verão, mas sombria, diante do mar e das gaivotas, um barquinho me trouxe a resposta que eu procurava.

Imóvel, apesar das ondas altas, transportava um pescador nada preocupado com o mau tempo, conectado ao mar e à linha que segurava na água com uma serenidade incrível, como se uma mão gigante o mantivesse firme na superfície.

“Essa é a serenidade que desejo infundir nos meus pacientes!” pensei.

Uma mão gigante, segura e temporária, que os mantém à tona e longe de suas inseguranças, até que, pelos abismos mais turvos de seus medos, os conduza às margens de um novo e belo mundo.

Mas tornar-se essa mão é um processo complexo que exige muita atenção.

A aliança terapêutica é uma parte fundamental do tratamento EFT e talvez uma das mais difíceis. É a fase em que a confiança é estabelecida.
Voltando ao barquinho, é o momento em que o pescador lança a âncora e confia, porque ele confia na segurança da âncora.

O terapeuta EFT é a âncora de segurança de seus pacientes, e a aliança que constrói com eles é o primeiro tijolo que coloca nos alicerces.

No entanto, nem sempre esses alicerces são sólidos; na verdade, muitas vezes são instáveis, lamacentos e abalados, porque quem nos procura vive um momento de forte crise e estresse ou foi traído, não uma, não duas, mas muitas vezes.

Ajudá-los a confiar em nós, induzi-los a tirar as armaduras e baixar as defesas para entrar em mar aberto pode parecer uma tarefa titânica, ou melhor, uma odisseia!

E mesmo quando pensamos que conseguimos, devemos estar preparados para os naufrágios, os retrocessos da confiança, que podem acontecer.

Nesse ponto, o terapeuta EFT restabelece o contato e, se necessário, recomeça do zero.

Ele sabe que sem confiança não pode haver aliança terapêutica, e sem aliança não pode existir conexão, sem conexão o Amor nao pode voltar firme, forte e seguro.

Felizmente, ele conhece os quatro elementos-chave para manter a aliança à tona, mesmo em condições de tempestade:

  • Sorriso;
  • No-logo;
  • Par condicio;
  • Compartilhamento.

O SORRISO EFT – A Acessibilidade do terapeuta


O sorriso (e o “aqui e agora” do terapeuta): os parceiros precisam sentir um vínculo caloroso e de apoio. Recebê-los com um sorriso, com a curiosidade de ouvir seus mundos, os ajuda a falar sobre seus mundos. E, portanto, estar ao lado deles desde o primeiro instante e a cada instante, presente (e acolhedor e atento).

NO-LOGO: SEM RÓTULOS


O terapeuta EFT não cola rótulos, e isso contribui para a criação de uma base segura.

Nem de certo e errado, porque sabe, e comunica, que somos todos certos e errados e que todos temos algo de que gostamos e algo que não suportamos. Ser ambivalente é natural, porque até plantas benéficas podem se tornar tóxicas. E vice-versa.

(Pense neste caso: entre um parceiro que traiu e um parceiro que foi traído, não deve haver diferença de escuta ou de julgamento. Um terapeuta EFT sabe que ambos precisam de conexão, e descobrir como conduzi-los a esse resultado não deve depender da compaixão ou ressentimento por um ou por outro, mas da compreensão de seus diferentes caminhos de dor).

Nem de patologias. O terapeuta EFT evita qualquer definição pré-estabelecida. Listar nomes de distúrbios, doenças ou traumas para fechar o prontuário e arquivar o caso não faz parte do processo. Assim, ele não vê os comportamentos dos clientes como resultados de patologias. Em vez disso, considera as dificuldades emocionais e relacionais como respostas normais a experiências difíceis de apego. Esse enfoque ajuda a reduzir o estigma, fazendo com que as pessoas se sintam compreendidas e aceitas. Os terapeutas EFT trabalham com os clientes para explorar suas emoções e criar um ambiente seguro onde possam expressar suas vulnerabilidades. Isso promove a cura e a melhoria dos relacionamentos de maneira compassiva e colaborativa. Em resumo, isso não significa ignorar os diagnósticos, mas não utilizá-los para rotular ou estigmatizar os clientes, focando na compreensão e transformação de suas experiências emocionais e relacionais

PAR CONDICIO EFT – O envolvimento emocional do terapeuta


Além do termo técnico, que pode parecer político e distante, o conceito de “mesmo tempo, mesmo espaço, mesma atenção” ilustra bem o método de escuta do terapeuta EFT. Isso significa que o terapeuta deve estar presente com todo o seu interesse e comprometimento em relação ao cliente e ao seu percurso terapêutico. Validar e apoiar um parceiro implica encontrar pelo menos um aspecto positivo em que se concentrar para sustentar o outro parceiro. O envolvimento do terapeuta inclui a participação ativa e a co-criação do processo terapêutico com o cliente. Um terapeuta verdadeiramente envolvido inspira o cliente a participar ativamente da terapia.

COMPARTILHAMENTO EFT


Compartilhar. É um ménage à trois. Ambos os parceiros compartilham os mesmos objetivos do terapeuta, e o terapeuta visualiza as intervenções de ambos os parceiros como úteis e relevantes.

Sobre este último ponto, existem algumas perguntas que podem ajudar o terapeuta EFT a melhorar a aliança e que fazem parte, justamente, da condição de intenções compartilhadas.

Basta que ele se pergunte:

  • Estou fornecendo o espaço necessário para cada parceiro falar sobre sua experiência?
  • Quanto estou sintonizado com cada parceiro?
  • Quais emoções me vêm à mente quando penso no casal e em cada parceiro?

Depois que o terapeuta constrói a aliança, levanta as velas e empurra o barquinho para o mar, ele não deve perder o rumo.

Certos problemas de navegação podem surgir mais tarde, quando a ferrugem sob a pintura já corroeu o casco.

Nesses casos, aqui está um bom mapa para reconhecer os alertas:

  • Pouca distância, ou seja, a perda da “perspectiva sistêmica”. Pode acontecer de pender para um lado e simpatizar com um dos parceiros, alinhar-se com aquele que é “mais razoável”, “mais acessível” ou que nos lembra (o cérebro nos engana) de nós mesmos. Se sentirmos que temos sentimentos negativos em relação ao cliente, se percebemos que o relato nos envolve pessoalmente e nos faz sentir frustrados, irritados, intimidados etc., é urgente restabelecer a distância: parar e retomar o percurso a partir dos pilares mencionados acima.
  • Muita distância, ou seja, dificuldade em acessar as emoções primárias dos parceiros. Isso acontece. Não deveria, mas acontece. Vemos isso quando um ou ambos os parceiros resistem ou não respondem às intervenções, mesmo as mais básicas de EFT. Ou quando um ou ambos estão excessivamente assustados e não estão dispostos a correr riscos emocionais. O fechamento ou a rejeição ao enactment ou às tentativas subsequentes de exploração são bloqueios que precisam ser investigados e resolvidos antes de seguir adiante.
  • Patologização. O Google já basta. Nomear os sintomas não é a solução.
  • Motim. Perder o controle da sessão ou do ciclo, ou não conseguir limitar um parceiro muito dominante (ou muito falador e centrado apenas em detalhes e conteúdos práticos) pode arruinar o percurso terapêutico, forçando o outro parceiro a uma escuta passiva e tirando espaço do diálogo funcional. Lembre-se de que o terapeuta EFT é a mão gigante sob o barquinho na tempestade; se necessário, ele deve saber como colocar a proa de volta no curso e a popa em seu lugar.

A aliança terapêutica deve ser construída e mantida, como uma plantinha de manjericão.

Se os indicadores acima devem nos deixar alertas e nos levar a uma revisão, os que seguem são os sinais no painel que sempre devemos monitorar.

Três perguntas que preveem seis respostas.

Por quê seis? Porque os parceiros podem, e frequentemente o fazem, perceber o terapeuta de maneiras diferentes.

  • Como você se sente em relação ao processo terapêutico?
  • Você sente que eu te entendo?
  • Parece que estamos trabalhando nas áreas certas de dificuldade?

E agora, os cinco dedos da mão gigante, também conhecidos como os eternos princípios da aliança terapêutica, que gosto de lembrar como se fossem os elementos de uma orquestra:

  • Harmonia: A sintonização significa encontrar os clientes onde eles estão (lembra-se do primeiro pilar “aqui e agora” da terapia?), compreendendo seu mundo e compartilhando seu entendimento com eles. Harmonizar-se com os clientes significa usar sua própria experiência emocional como ferramenta para entender melhor os sentimentos deles.
  • Voz principal: Depois de escolher qual melodia tocar, é preciso decidir como. Lembrando, sempre, que a voz protagonista é a deles.
  • Coro: A conexão é, de fato, um trabalho “coral”. Demonstrar interesse pelas vidas dos pacientes, além do que acontece na sessão, significa fazê-los sentir-se pessoas.
  • Partes solo: ou seja, as sessões individuais, que podem oferecer, em situações de dificuldade, um porto seguro e reforçar a aliança com os parceiros individualmente. As sessões individuais podem ser especialmente valiosas para sobreviventes de traumas que podem ter dificuldade em estabelecer segurança e confiança. Elas também podem ser úteis nas fases iniciais com casais em forte escalada.

E agora volto a pensar naquele barquinho e fico feliz, porque sei que, com uma boa aliança terapêutica, até mesmo os pacientes que me pedem ajuda, que estão se afogando, que se desesperam em meio às piores tempestades emocionais, podem voltar a sorrir, assim como o pescador destemido.

Giulia Altera – Treinadora certificada ICEEFT em EFT – Italia